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sexta-feira, 16 de abril de 2010

O Scartaris (Capitulo I - Post 4)

I


Post 4


E assim uma breve brisa sopra em algum ponto de algum porto. Forjado em vapor metal e sangue. E alguém acende velas para o santo das causas impossíveis em uma igreja antes que o céu escape aos olhos. Algo abre asas. Ascende. Viaja sem vê-las, elas as Parcas. E assim vão se formando historias. E as três deusas-bruxas rumam rindo em seu barquinho.


Neste instante Nobrum conta com quase sessenta anos, ele não saberia dizer ao certo, da mesma forma que não saberia dizer ao certo quem foi seu pai. Nascido em um prostíbulo de Porcamiséria. Uma antiga colônia romana, onde as pessoas tem por habito falar mais palavrões que qualquer ser humano seria capaz por dia. Mas esta noite ele está quebrando a rotina. Poucos palavrões, saboreando tanto a brisa do mar quanto o álcool de sua garrafa. E isso foi horas antes de como esta história termina.


O cachorro vira-latas desaparece nas docas. Nobrum ri. Outro gole. Outras palavras trocadas com a carranca marmórea do Scartaris. “Seu puto, e você me deixou aqui como capitão”. O tempo cortado em impactos. Em goles de garrafa que se esvazia, sem pressa, em longas pausas e poucos palavrões desta vez.


Memórias. Tempo. Linhas. Vidas. Destinos. Tudo se entrelaçando ao mar, indicando o mar como direção. Canções ao ranger da madeira. Trovões como se fossem uma ode aos deuses. Em algum ponto do tempo quatro irmãs se abraçam em frente ao corpo de seu pai amarrado no mastro, morto por fuzilamento.


Três semanas atrás. Risos no tombadilho e festa. Pilhagem bem-sucedida, marujos bebem, cantam, se abraçam. O mar com um horizonte melhor e maior que eles sequer poderiam imaginar. O tempo cabe em um relógio de bolso.


Três dias atrás. Um saloon na Califórnia, onde tudo da mesma forma em que começa parece terminar. A mesma mulher no alto da escada. Uma quadra de ases abre sobre a mesa. O mesmo grito. Um gole de Whisky. Um tiro. Uma risada.Outro apertar de gatilho. Algo é interrompido. Meretrizes passeando ao redor. Elas passam a correr. E o caminho começa a ser aberto a bala. Um tiro um morto. Uma bala disparada. Outro cadáver. Alguém sobe as escadas. Um balcão onde alguns se escondem. Os mortos tombam em baques selados. Uma armadilha.


Uma semana atrás. Um homem desembarca do Scartaris, caminha pelas ruas noturnas de Nipon, e sua cabeça está a prêmio. Ele pensa ter deixado seu filho em segurança no barco, mas sabem? Não foi isso que aconteceu. Óculos escuros, roupas de samurai. E os becos tentam engolir aquela figura silente.


Um dia atrás. Dez homens cercam um cara vestido em roupas de vermelho berrante, pois as cores e tramas pomposas são peculiares da Frankenstonia. Uma espada é sacada mais rápida que qualquer dos gatilhos fossem apertados. Rápido. Certeiro. Outros vão surgindo , até do mais obscuro bueiro, armas apontadas a distância. E o ilustre cavalheiro de espada, tira sua luva, revelando uma estranha luz azulada. Gritos. Um ultimo grito. E o tempo escapa nas linhas cruzadas dos destinos. Emboscada.


Quinze horas atrás. Um louco ri alto a plenos pulmões. Sua ultima gota de razão se esvai.


Cinco anos atrás. Na ilha de Vera Cruz, alguém quer ser pirata, mais do que qualquer outra coisa na vida. E os ventos vão da brisa até a tempestade em pouco tempo. E os destinos vão sendo tecidos sem saber. Entrelaçando-se.


Dez anos atrás. Um desastre de trem. Pessoas mortas. Barras de ouro da grande companhia que seriam utilizadas para ajudar os pobres. E alguém é condenado à morte por enforcamento. Mas as fiandeiras tinham planos para aquela corda de forca.


Vapor. Fumaça. Engrenagens. Suor e sangue. Tempo. Tic tac.

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