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Post 3
O velho comandante Nobrum, conversa com a carranca de “Olho saltado” e o vira-latas escapa de seu abraço. Um diálogo animado até, relembrando os velhos feitos, tendo a cada gole sua garrafa como companhia no porto vazio. O vento e a maré. O som das águas e o álcool. Noite perfeita estrelada.
O Scartaris, à luz do luar, parece ainda mais imponente do que sempre fora. Lembranças. Outra linha de tempo. Passado. Certa vez o velho “Olho saltado” contou a Nobrum sobre a fabricação do navio.
Nobrum na ocasião ainda nem sequer sonhava em ser comandante, pois era apenas mais um jovem marujo da tripulação, Jack “Olho saltado”,estava trôpego e trêbado e lhe disse apontando ao navio “Eu construí tudo sozinho desde pequeno”. E ria.
Um arroto saído da alma interrompeu a locução do primeiro capitão que o navio teve, ele riu ainda mais alto e abraçou um Nobrum, mais jovem e mais sóbrio, e continuou a falar “Acredita que eu fiz ele a partir de um barquinho de corda que eu criei aos meus doze anos?”. E indicou o tamanho meio incerto medindo entre o polegar e o indicador. Gargalhadas espumantes. E mirou as estrelas.
Nobrum lembra-se da cara de “Puta que pariu velho, cala a boca!” que ele fez ao ouvir a décima bravata da noite e o seu capitão na época encarou-o bem sério e disse-lhe “Duvida das historias deste velho pirata?” um dia procure onde menos esperar e irá encontrar o coração do navio um barquinho de corda”
E Jack “Olho saltado” riu desgraçadamente feio, até a risada do sujeito era feia. E após breve pausa um grito em direção aos céus “Todo capitão que este navio aceitar, eu lhe digo meu caro Nobrum, será dono de seu destino!” e completou a frase olhando para o mais jovem num sussurro confidente“Se um dia puder pergunte as anciãs”.
É claro que Nobrum nem se deu ao trabalho de perguntar de que velhas Jack “Olho Saltado” estava falando, talvez fossem apenas putas dos delírios de um marujo bêbado.
Horas pardas, como todos gatos a noite . Estas horas são parcas.Escassas. Escorregadias. E as Parcas rumam na barca do destino. Fiandeiras como só elas sabem o ser. As estrelas do firmamento como guia. Acima dos céus e dos deuses. Riscam estrelas cadentes no negro céu marítimo em seu ritmo acelerado.
Parcas. Moiras ou Fates. Chame-as como quiser. Mas se as chamar que seja com sabedoria. Elas são deusas, são bruxas, são senhoras que curvam o destino ao seu deleite. Elas estão construindo velas em seu eterno tear em algum ponto do tempo, para levantar as velas e deixá-las partir. O tempo é um brinquedinho a tique-taquear. Engrenagens movem-se.

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